Espiritualidade e sexualidade: não separe o que Deus uniu - por Gelson Magalhães
01/05/2015

Estes dois temas são quase opostos na mentalidade religiosa do povo brasileiro, sejam católicos, espíritas ou evangélicos. São assuntos divorciados. Espiritualidade é associada com algo imaterial e boa e sexualidade com a matéria e má. Esta compreensão tem gerado no decorrer da história profundos males à vida dos cristãos, pois para ser espiritual é preciso negar o sexual.
Richard Foster diz “Uma das verdadeiras tragédias da história do cristianismo tem sido o divórcio entre a sexualidade e a espiritualidade. Esse fato é tanto mais lamentável por a Bíblia apresentar um conceito de tão alta celebração da sexualidade humana”. Esta celebração das Escrituras se tornou em negação e repressão por parte da igreja ao longo da história. A teóloga alemão Uta Ranke-Heinemann demonstrou com acurada e profunda pesquisa no seu livro “Eunucos pelo reino de Deus” como o entendimento e ensino da igreja católica (com algumas ressalvas, diríamos também a evangélica) foi e é claramente pagão.
O bispo (ou ex) anglicano Robinson Cavalcanti resume afirmando “o cristianismo nasce entre os hebreus, mas se desenvolve no ambiente greco-romano. A glorificação da virgindade, o celibato clerical, o monasticismo, o isolamento dos eremitas, a auto-castração de Orígenes, a depreciação corporal dos anacoretas, são sinais e sintomas do afastamento da visão hebraica” e diriamos da visão bíblica. 
A posição das igrejas, continua Cavalcanti em nossos dias é “baseada no paganismo, no medievalismo e na moral pequeno-burguesa, com uma roupagem e uma linguagem pretensamente bíblicas’, que de fato é lida por uma ótica cultural, e cujo resultado ideológico é imposto coercitivamente aos fiéis pelos mecanismos institucionais.
Como temos uma visão pagã da sexualidade relato alguns exemplos de uma palestra para casais que ministrei. Ouvi casais falarem que fecham a biblia quando vão Ter relações sexuais ou desligam o aparelho de som, se for música evangélica. Percebi também grande estranheza e vergonha quando perguntei se alguém após o ato sexual já tinha agradecido a Deus pelo prazer desfrutado. Essa frase “Obrigado Jesus pelo orgasmo” soou como heresia. Presenciei de fato que somos pagãos na nossa sexualidade.
Para unirmos o que o homem separou precisamos reler as escrituras com olhos sem preconceitos ou lentes da nossa moralidade e religiosidade e construirmos uma teologia que fundamente uma espiritualidade erótica. Para isso precisamos redescobrir a teologia bíblica da Criação e da Encarnação. 
Deus criou todas as coisas e disse que tudo era bom. Na criação dos humanos diz-se que “à imagem de Deus os criou”. Essa Imago Dei já foi explicada de várias formas, mas a exposição de Karl Barth aproxima-se mais do relato bíblico. Para ele, o relacionamento entre o homem e mulher é o âmago de sermos feitos “à imagem de Deus” . Foster comenta: “Nossa sexualidade humana – nossa masculinidade e feminilidade – não é apenas uma forma conveniente de manter a continuidade da raça humana. Não, ela está no coração de nossa verdadeira humanidade. Existimos como homem e mulher em relacionamento. Nossos impulsos sexuais, nossa capacidade de amar e sermos amados, estão intimamente relacionados ao fato de termos sido criados à imagem de Deus.” 
Precisamos de uma vez por todas aceitar que o mundo material é bom e jogar fora o dualismo grego-platônico, aceitar os nossos corpos e desfrutarmos do jardim que Javé plantou. Não precisamos fechar os olhos para enxergarmos a Deus, ele está na sua boa criação como expressa o salmista “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de sua mãos”(Sl 19.1).
Todo o Antigo (Primeiro) Testamento expressa a integralidade da criação, sem dualismos, mas há ainda um livro especificamente erótico que precisa ser redescoberto pelos cristãos que é o cântico dos cânticos, que de acordo com Barth é um comentário de Gn 2.25 “Ora, um e outro, o homem e sua mulher estavam nus e não se envergonhavam”. Foster diz “O simples fato de encontrar-se na escritura é um elegante testemunho da recusa hebraica em trinchar a vida, separando-a em coisas sacras e seculares”.
O livro de Cantares tem sido, de acordo com Júlio Zabatiero um “dos mais explorados das Escrituras. Sua temática, o amor apaixonado entre homem e mulher, foi considerada – muitas vezes na história da interpretação do livro – indigna e carnal. Daí, as fortes correntes de interpretação alegórica, tipológica e simbólica dessa coleção de poemas de amor”. Outro biblista, Carlos Mesters resume o conteúdo de cantares com as seguintes palavras “Usa uma linguagem erótica de grande beleza poética: descreve com arte o jogo do amor (4.9-15; 5.2-8); com naturalidade evoca a relação sexual (2.4); não fala da mulher enquanto esposa ou mãe, mas sim enquanto enamorada que busca o seu amado até encontrá-lo (3.1-4); descreve a beleza do corpo da mulher em todas as minúcias (4.1-7); chega a fazer uma descrição da beleza do corpo do homem (5.10-16); fala do amor humano não enquanto fonte de procriação, mas só enquanto busca amorosa e entrega mútua (2.16; 6.3).” 
Precisamos reler, ensinar e pregar este livro nas nossas igrejas. Como afirma o Pr. Caio Fábio, nas cerimônias religiosas de casamento, as prédicas devem mudar de 1 Coríntios 13 que fala do amor Ágape de Deus para os poemas de cantares que expressam o amor Eros do homem e da mulher e que segundo o mesmo, este é o que mantém o casamento.
Além da Criação, precisamos redescobrir a teologia da encarnação. No evangelho de João 1.14 diz “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. Jesus se fez homem, plenamente humano. Não apenas aparência como queriam os docetistas e gnósticos, mas com todas as características humanas, exceto o pecado.
A encarnação do Verbo expressa de forma maravilhosa a valorização do corpo humano. Deus se fez corpo e se revelou de forma plena através dele. Não é a prisão da alma como queria Platão, “O dualismo bíblico não é igual ao dualismo grego, em que a alma é prisioneira do corpo, pelo contrário, o corpo é instrumento através do qual o imaterial se expressa. As partes material e imaterial da pessoa estão em pé de igualdade. As duas precisam da redenção e vivem eternamente. O homem não é apenas corpo ou apenas alma/espírito, mas a combinação deles”. (Enciclopédia Histórico-teológica) .
O teólogo José Comblim afirma: “Para eles(Jesus e os apóstolos) está claro que o homem é um só. Por isso não há na Bíblia conceitos que se apliquem a distintas partes do homem. Não há equivalentes do corpo e da alma. As palavras hebraicas que os tradutores traduzem por corpo, carne, alma, espírito, não dizem respeito a uma parte ou um elemento constitutivo do homem e sim a diversos aspectos da sua totalidade. Mesmo usando palavras gregas, os autores do Novo Testamento conferem-lhes sentidos equivalentes aos sentidos hebraicos. A “carne”, por exemplo, não significa o corpo como distinto da alma, e sim o homem todo na sua fraqueza, mortalidade, tentação de pecado. Assim, a carne está mais no intelecto e na vontade do que na matéria. O homem é carnal nos seus pensamentos na medida em que põe a sua confiança neles e busca a sua salvação por meio deles. Para o evangelho cristão tudo no homem é corporal, tudo é espiritual, tudo é alma. Não há nada fora do corpo. Pois o espírito está também no corpo, ele é o corpo humano como orientado sob a moção de Deus.”
A não compreensão da encarnação produziu o desprezo pelo corpo Rubem Alves afirma: “Pensamos encontrar Deus onde o corpo termina; e o fizemos sofrer e o transformamos em besta de carga, em cumpridor de ordens, em máquina para o trabalho, em inimigo a ser silenciado, e assim o perseguimos, ao ponto do elogio da morte como caminho para Deus, como se Deus preferisse o cheiro dos sepulcros às delícias do Paraíso. E ficamos cruéis, violentos, permitimos a exploração e a guerra. Pois se Deus se encontra para além do corpo, então tudo pode ser feito ao corpo”.
O próprio Rubem Alves em forma de poesia expressa: 
“Deus fez-nos corpos,
Deus fez-se corpo. Encarnou-se.
Corpo: imagem de Deus.
Corpo: nosso destino, destino de Deus.
Isto é bom.
Eterna divina solidariedade com a carne humana.
Nada mais digno.<br />
O corpo não está destinado a elevar-se a espírito.
É o Espírito que escolhe fazer-se visível, no corpo.
Corpo: realização do Espírito: suas mãos, seus olhos, suas palavras, seus gestos de amor...
Corpo: ventre onde Deus se forma. Maria, grávida, Jesus, feto silencioso, à espera, protegido, no calor das entranhas de uma mulher.
Jesus: corpo de Deus entre nós,
Corpo que se dá aos homens,
Corpo para os corpos, como carne e sangue, pão e vinho.
E o corpo de Deus, Jesus Cristo, se expande, incha, tomando o universo inteiro
“presente em todos os lugares,
mesmo dentro da folha mais diminuta,
em cada uma das coisas criadas, dentro e fora,
a sua volta e no interior de suas nervuras, por 
baixo e por cima, atrás e á frente...”(Lutero)
O corpo é o Espírito gracioso, capaz de sorri,
Capaz de ficar grávido, gerar, morrer de amor...
É bem aí, no corpo, que Deus e o homem se 
Encontram”. 
O corpo é tão valorizado no cristianismo que este afirma a sua fé e esperança no credo : “Creio na ressurreição do corpo”, ou seja, faz parte da doutrina cristã a convicção que o corpo vai ressuscitar. Não existe a noção de almas desencarnadas curtindo o além. A afrimação do apóstolo Paulo é que teremos corpos espirituais. A união plena do que a igreja tem tentado separado. Na Concretização do reino de Deus seremos plenamente espirituais e plenamente corporais, que nós possamos antecipar essa vinda, vivendo uma espiritualidade corpórea e sexualizada.
Comunicação apresentada na semana de estudos da FTSA 

Pr.Gelson dos Santos Magalhães
gelsonmaranata@yahoo.com.br