A Graça de Deus e o legalismo humano por Gelson Magalhães
01/05/2015

Para iniciarmos o nosso assunto vamos ler uma parte do regulamento interno com as regras de como deve ser o comportamento dos membros de uma determinada igreja evangélica pentecostal: 1. Marido mais novo que a esposa. Diferença tolerada: 10 anos, se ele estiver entre 18 e 21 anos. Base bíblica: I Co 7.40; II Co 5.17; II Co 6.14-18. Punição para o desobediente: não haverá casamento na igreja. 2. É proibido comer dentro da igreja (Rm 14.17; I Co 8.8) 3. Pregador, no púlpito, precisa usar terno, com gravata (I Co 14.40; I Tm 3.15), mas a gravata não pode ter mais do que 7 centímetros de largura nem o paletó ter abertura atrás. 4. Não se pode usar a televisão (Sl 25.15; 101.3; Zc 4.6; Mt 6.22-23). 5. As mulheres não podem andar de bicicleta, a cavalo ou de moto (Mt 13.41-42;18.7; I Co 8.12; I Ts 5.22). 6. Os homens não podem usar “short”, nem bermuda ou andar sem camisa (Gn 3.21; Ex 20.26; Ap 16.15). 7. Os homens não podem deixar os seus cabelos cobrir as suas orelhas (I Co 11.14; Ez 44.20). 8. Os óculos não podem ser vaidosos (I Co 8.12-13; I Jô 2.15-17) 9. As calças dos homens não podem ter mais de 24 centímetros de boca (Fp 3.17; I Ts 1.7; I Pe 5.3). 10. As mulheres não podem usar biquines, maiôs ou “short” (Gn 3.21; Mt 18.18; Rm 1.26) 11. As mulheres não podem se depilar ou raspar as pernas (II Rs 9.30; Ez 23.40-45; I Pe 3.5) nem usar esmalte e unhas compridas. Não podem cortar o cabelo, usar “bobe”, perucas, nem pintar o cabelo. 12. Os cintos das mulheres não podem ter mais do que 2 centímetros de largura (Gl 5.22; I Tm 2.9). 13. Só pode participar da Santa Ceia quem tiver a sua carteirinha de membro atualizada e com o carnê dos dízimos em dia (Lc 22.16-23). 14. As mulheres não podem usar sapatos com mais de 3 centímetros de altura. 15. O noivo só pode ficar na casa da noiva até as 22:00 horas (I Rs 18.12 Ec 11.1). 16. Os homens não podem usar costeletas, barba ou bigode (Gn 41.14). O legalismo é a tendência humana de querer agradar a Deus por meio dos seus esforços e por isso ganhar o seu favor, cumprindo leis e regras pretensamente divinas. O coração humano orgulhoso e caído não aceita a sua total incapacidade de salvar-se, por isso cria religiões como o meio de provar à Deus que é capaz de voltar ao paraíso por si mesmo. A graça de Deus manifesta em Jesus Cristo é profundamente ofensiva ao ser humano natural ao declarar que ninguém merece o favor divino, pois “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Esta encerra todos debaixo deste veredicto, são pecadores, “não há um justo sequer, ninguém que faça o bem, todos à uma se extraviaram” Como Paulo diz em Efésios 2.8 estávamos todos mortos em nossos delitos e pecados, “pela graça sois salvos, mediante a fé e isso não vem de nós é dom de Deus, não de obras para que ninguém se glorie.” Ninguém pode se gloriar em suas obras, quaisquer que sejam, é somente pela graça a nossa salvação. À luz dessa verdade podemos dizer que toda religião (entendida como meio de salvação) e os legalismos a ela inerentes são frutos da soberba humana em rejeitar a graça e desprezar sua manifestação plena na cruz. O pastor Ricardo Gondim escreveu um livro sobre este tema motivado pelo sofrimento de muitos que vivem presos às amarras de um legalismo farisaico sem a graça divina: “Preocupa-me imaginar a possibilidade de que muitos crentes hodiernos não tenham alicerçado sua fé na graça de Deus; infelizmente, ainda dependem de suas boas obras como garantia de salvação. Têm sido acrescentadas fórmulas e exigências comportamentais à mensagem da salvação, tornando o sacrifício de Cristo ineficaz. Indago-me freqüentemente se muitos crentes não se estribam nas doutrinas e proibições de suas igrejas como um meio de alcançarem a salvação” (pg. 16). Esta indagação do Gondim é pertinente, pois apesar de sermos herdeiros da Reforma e da Sola Gratia e criticarmos católicos e espíritas por apoiarem-se nas suas boas obras e caridade para conseguirem a salvação, boa parte dos evangélicos baseiam-se nas suas regras e proibições para serem salvos, anulando a eficácia do sacrifício remidor de Cristo na cruz acrescentando o esforço humano. Na prática, Cristo não salva e voltamos ao velho farisaísmo. Esta é uma velha tendência da igreja evangélica brasileira ocasionada por uma leitura fundamentalista da bíblia, leitura esta que segundo o teólogo Júlio Zabatiero “reduz a graça à atitude divina de aceitação do pecador na conversão, e recoloca a lei no centro da vida cristã. Conseqüentemente, ao invés de promover a ética do Espírito, favorece a implementação de uma “ética” da carne, fazendo da santificação um processo no qual o esforço humano é central, em detrimento da graça divina.” Em outras palavras, a salvação é pela graça, mas a santificação é fruto do cumprimento da lei. Entende-se que a graça é um tipo de empréstimo feito por Deus, enquanto ainda éramos pecadores, mas com o nosso melhoramento moral podemos avançar para não mais precisarmos dela. Um exemplo de uma igreja na Bíblia que estava sendo influenciada pelo legalismo é a de Colossos, onde podemos ler a repreensão do Apóstolo Paulo “Ninguém, pois, vos julgue por causa da comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das cousas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo”. (Cl 2.16-17). John MacArthur comentando esta passagem bíblica faz a seguinte citação: “ O legalismo é tanto uma ameaça à igreja hoje como o foi em Colossos. Mesmo nas igrejas evangélicas há muitas pessoas cuja certeza de salvação está baseada em suas atividades religiosas, ao invés de confiarem somente no Salvador todo-suficiente. (...) Um evangelho de obras efetuadas pelo homem não é nenhum evangelho (Gl 1.6-7; 5.2). Se batismo, orações, jejuns, uso de vestes especiais, presença na igreja, vários tipos de abstinência ou outros deveres religiosos são necessários para se ganhar a salvação, então a obra de Cristo não é verdadeiramente suficiente. Isso é zombar do evangelho”. (p.151) Apesar de ser de um outro contexto, o norte-americano, esta afirmação cabe perfeitamente em nossa realidade brasileira. COMPREENDENDO A GRAÇA Todos os principais temas teológicos baseiam-se na graça de Deus como o alicerce fundamental para todas as principais doutrinas do edifício doutrinário reformado. A eleição é ato da livre graça soberana, a justificação acontece pela graça mediante a fé e todos os eventos que compõe a ordo salutis (ordem de salvação). Os reformadores seguem a ënfase do Apóstolo Paulo baseada no próprio Cristo e na sequëncia desenvolvida por Agostinho. Lutero viveu a maior parte da sua vida em crise religiosa, buscando encontrar o Deus gracioso, e se livrar daquele que o perseguia com a lei. Ele viveu tentando agradar e cumprir os mandamentos divinos sem sucesso, através de dedicação religiosa, monástica, ascetica, porém tudo em vão. Neste período, ele descobre a graça na carta de Paulo aos romanos. E daí nasce a Reforma. Como afirma apropriadamente o autor católico Herman Pesch sobre a convicção da reforma, a graça não é nenhum tema particular da teologia ou objeto, “mas simplesmente o tema da teologia, a situação existencial do homem perante Deus e com Deus que o Evangelho proclama, e, sendo assim, o ponto de vista oniabrangente sob o qual todo tema particular da teologia deve ser tratado”. “Graça é a maneira pela qual Deus se dispõe a receber, de braços abertos, o pecador, não obstante sua santidade absoluta e o estado miserável em que se encontra aquele que dele se desviou. É uma bênção ou um favor verdadeiramente imerecido e indevido, que Deus concede em sua soberania, nunca em resposta a alguma iniciativa da parte do pecador. Deus não tem nenhuma obrigação de perdoar. Ninguém tem o direito de cobrar tal coisa de Deus. Ele, no entanto, perdoa por causa da graça. A iniciativa é sempre de Deus.”(ULTIMATO) “Graça é a atividade salvífica de Deus, que, decidida desde toda a eternidade, se tornou manifesta e eficaz na obra redentora de Cristo em favor de nós, e que continua e consuma em nós e no mundo a obra redentora”(vol., p.453). J.I. Packer define dessa forma “A graça de Deus é o amor manifestado livremente aos pecadores culpados, apesar de sua falta de merecimento, sendo mesmo um desafio à total ausência de mérito. É Deus mostrando bondade para com pessoas que merecem apenas a inclemência, e não tem motivo algum para esperar outra coisa.” Otto Hermann Pesch define “Graça é o voltar-se – imerecido, inesperado e incompreensível – do amor de Deus ao homem, conduzindo-o à salvação na comunhão de vida com Deus, desvelando e vencendo libertadoramente a oposição a Deus enquanto prisão do homem em si próprio”. (Vocabulário Teológico Fundamental.pg.328) Heber Carlos de Campos assim define a graça de Deus como “o favor eterno e totalmente gratuito de Deus, manifestado na concessão de bênçãos espirituais e eternas às criaturas culpadas e indignas”. A graça é a concessão de favores a quem não tem mérito próprio, e pelos quais não se exige compensação alguma. Não somente a graça é dada àqueles que não tem mérito próprio, como é dada aos que merecem condenação. Por ela ser imerecida ninguém pode reinvindicá-la como direito. Se o pudesse não seria graça. Graça e mérito são excludentes (Rm 11.6; Rm 4,4-5; Ef 2,8). A HISTÓRIA DE UM LEGALISTA O relacionamento com Deus baseado na lei é expresso claramente na parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32) contada por Jesus. Para a entendermos é necessário conhecer o contexto em que foi proferida. O capítulo 15 de Lucas, Jesus conta três parábolas que retratam basicamente o júbilo de Deus quando o pecador perdido é achado, são parábolas que falam da ovelha perdida, do dracma perdido e do filho perdido. A razão para Jesus contar estas parábolas se encontra no início do capítulo (vs.1 e 2), que relata a aproximação dos publicanos e pecadores de Jesus, que levou os fariseus e escribas murmurarem contra Jesus, “ como pode ele comer com pecadores”, diziam. Comer com pecadores tem um significado muito grande, principalmente no Oriente, pois nessa cultura à comunhão a mesa é um assunto relativamente sério. Como diz Bailey: “No Oriente, hoje em dia, como no passado, um nobre pode alimentar qualquer número de pessoas necessitadas, de nível inferior, como sinal de generosidade, mas não come com elas. Todavia, quando os convivas são “recebidos”, a pessoa que recebe esses convivas come com eles. A refeição é um sinal especial de aceitação”. (BAILEY, 1976,194). Entendemos que esta parábola é uma espécie de apologia que Jesus faz, explicando teologicamente as suas atitudes. Com as devidas proporções guardadas, o filho mais moço representa a primeira classe de ouvintes, os publicanos e pecadores, e o filho mais velho representa os fariseus e escribas. A pessoa central da parábola não é o filho pródigo, mas o pai, em quem está centrada todas as principais ações do texto, simbolizando como Deus se relaciona com os seus, sempre buscando a reconciliação. O filho mais velho, o legalista representa como hoje vivem muitos cristãos, como escravos, servindo a Deus por obrigação, como um fardo pesado de regras e proibições. Ainda estão debaixo da lei que produz morte e os deixam distantes da maravilhosa graça. Conhecem a Deus como Senhor e não como Pai, apesar de estarem morando na sua casa (igreja). Não experimentaram interiormente a dádiva da adoção como expressa o Apóstolo Paulo “ Porque não recebestes o espírito de escravidão para viverdes outra vez atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos:Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.15-16). Nós não somos mais escravos e nem órfãos, mas fomos adotados pelo Senhor que nos perdoou e nos aceitou, a despeito de todos os nossos pecados, nos fazendo filhos e herdeiros, já não precisamos viver com medo, ele nos convida para um relacionamento de perdão e amor, baseado na sua graça. Se a igreja evangélica brasileira entendesse e vivesse a graça, cremos que manifestaria ao mundo um estilo de vida mais alegre, espontâneo e bonito, atrairia de volta todos os pródigos que a deixaram por causa do pesado fardo do legalismo e faria com que os religiosos descobrissem que a festa da graça já começou há quase dois mil anos e que o Pai continua a espera-los para celebrar o amor, a vida e a salvação. Pr. Gelson Magalhães gelsonmaranata@yahoo.com.br